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A Espada na Pedra é o volume inicial da saga do Rei Arthur escrita por T.H. White. White toma a antiga lenda como base e escreve um romance moderno, cheio de anacronismos, que mostra o surgimento desse herói, e servirá de base para a maior parte das adaptações de história sobre o Rei Arthur posteriores, além de ser a semente de uma vertente da Literatura Fantástica que vai desde Tolkien e Lewis a Rowling e Martin.

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Nesse primeiro volume acompanhamos algumas aventuras da infância do órfão Arthur, até então conhecido como Wart, desde que conhece Merlin, até que retira a espada e é nomeado rei. Após um encontro “fortuito”, Merlin assume o papel de tutor de Wart e Kay, o mimado filho legítimo de seu pai adotivo. Com isso, Wart é enviado em diversas aventuras mágicas, a maioria transformado em animais, com quem aprenderá muito sobre o ser humano, sem saber que todos esses ensinamentos o prepararão para ser o grande rei de Camelot.

A narrativa tem um tom leve, com diversos elementos cômicos e infantis. Merlin e o narrador, são figuras anacrônicas, que ajudam a aproximar a história ao tempo do leitor. Wart é um garoto (estupidamente) inocente, que acaba tendo seu coração moldado pelos ensinamentos de Merlin. Em grande parte esses ensinamentos propõe uma reflexão sobre política, que era particularmente fecunda no período em que a obra foi escrita, e continua sendo de grande valia até os dias de hoje, em que o homem cada vez mais perde sua humanidade. Wart representa o último herói romântico, que carrega toda a pureza e desejo de acabar com o mal, mas sabemos que adiante em sua história será corrompido e fracassará.

A edição é muito bem feita, com uma boa diagramação, algumas páginas extras com bordas coloridas contendo informações sobre o autor e a obra, e encontrei alguns poucos erros de tradução e revisão. Um exemplo de tradução que me incomodou foi o uso da palavra “legenda” com o sentido de “lenda”, sei que elas tem a mesma origem etimológica, mas o uso de “legenda” como sinônimo de “lenda” caiu em desuso e, apesar de não representar um erro absoluto, causa uma estranheza e às vezes parece que foi uma tradução apressada do inglês “legend”. Como em geral a tradução preza por um uso mais cotidiano da língua, os tradutores deveriam se atentar para esses detalhes.

Lendo esse livro foi impossível não enxergar claramente as inspirações de J.K. Rowling. Desde a postura excêntrica de Merlin, que claramente inspirou Dumbledore, à transformação do órfão inferior Wart no herdeiro do trono, que se assemelha muito à passagem da vida “trouxa” à vida “bruxa” de Harry, e especialmente a tirada da espada da pedra, que reflete em pelo menos três momentos na obra de J.K.:

  • cenicamente, é a cena em que Harry compra sua varinha (jogos de luz, som, sensação, etc);
  • narrativamente é a tomada da Pedra Filosofal (inscrição explicativa – na pedra/no espelho, motivação altruísta – ajudar o primo/proteger a pedra), e;
  • explicitamente é a retirada da espada de Godric Griffindor do Chapéu Seletor.

No entanto, isso não desmerece a obra de J.K., Harry é um herói muito mais ativo do que Wart, mesmo que muitas vezes seja usado como brinquedo de Dumbledore. Assim, eu consideraria Harry Potter como um dos grandes sucessores espirituais da obra de T.H. White.

O filme da Disney

Como estou numa maratona de assistir uma animação todas as manhãs, aproveitei que terminei o livro para reassistir “The Sword in the Stone”. Das animações antigas (pré anos 80) da Disney foi uma das minhas favoritas nessa maratona. Como todo filme Disney, o enredo é drasticamente alterado, trazendo uma nova roupagem para a história. Se no livro tínhamos um jovem Wart vivendo diversas aventuras para ganhar maturidade e aprender sobre a natureza humana e política para se tornar um rei sábio e bondoso (mesmo que não saiba disso), no filme Merlin não vive o tempo ao contrário, tem apenas algumas “visões” do futuro, assim ele não sabe exatamente para que está treinando Wart, e todas as suas lições se resumem a mostrar que inteligência supera a força física. O filme também traz uma atmosfera diferente, mesmo que tenha um tom bastante cômico graças à excentricidade de Merlin, nesta história Wart é subjugado por Sir Ector e Kay, que assumem o papel de vilões (inexistente no livro).

 

Neste ponto, me fez pensar que talvez o filme também tenha servido de inspiração para J.K. Rowling, pois a relação dos dois com Wart se assemelha bastante à relação de Harry com os tios (lembrando que no livro Sir Ector trata Wart com benevolência, e Kay, apesar de ser um garoto mimada e muitas vezes rebaixar o amigo, ainda assim guarda um sentimento de amizade para com ele – no filme Wart não é bem tratado por ninguém a não ser Merlin). Além de que as cores predominantes no personagem de Arthur são justamente as cores da Grifinória. 

O filme também introduz uma personagem inexistente no livro, a horrenda Madame Min, que apesar de não ser de todo mal não acrescenta muito ao filme. Basicamente vemos a história se reduzir ao velho conflito de bem contra o mal, enquanto no livro tínhamos uma discussão muito mais profunda, principalmente representada na caçada do Rei Pellinore à Besta Gemente. Toda essa redução na complexidade do roteiro infelizmente leva por água abaixo a cena clímax da história, que é a retirada da espada da pedra. Enquanto no livro essa cena traz a tona toda a experiência de Arthur, além de ser narrada de forma magistral, no filme apenas os efeitos visuais e sonoros são retomados, perdendo completamente a ligação com as lições de Merlin.

O grande valor do filme está em seus aspectos técnicos, a trilha sonora que é carregada de efeitos sonoros musicais para movimentos (típico de desenhos mais antigos) e ainda com momentos de cantoria dos personagens (típicos de animações da Disney) é encantadora. Além disso a animação é muito bonita, com um cuidado incrível nos cenários e movimentação. No elenco de personagens a cena é completamente roubada pela coruja Arquimedes, seu mau humor e honestidade talvez sejam o único elemento mais complexo da narrativa.

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