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O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si – tudo isso se reorganizando para que essa intersecção precisa e incomum possa acontecer.

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Depois de muita preguiça e de um dia gasto na arrumação dos meus livros, resolvi tomar vergonha na cara e escrever um post com minhas impressões de leitura desse incrível Y.A., Todo Dia. Foi uma leitura muita rápida e agradável. Um dos pontos que mais me chamou atenção foi a narrativa em primeira pessoa no tempo presente. Antes de começar a ler o livro eu estava justamente tentando escrever um conto em tempo presente e encontrei muita dificuldade, especialmente na tentativa de refletir os efeitos de sentido que essa escolha carregam. Além do óbvio efeito dramático (no sentido de teatral mesmo), esse tipo de narrativa tem uma limitação que a torna muito expressiva, o narrador ainda não sabe as consequências de suas falas e ações.

 

Vamos ao enredo. (CUIDADO, PODE CONTER SPOILER) Logo de início o narrador nos apresenta sua condição especial: ele é um ser que vive cada dia no corpo de uma pessoa diferente, “tomando emprestado” a vida das pessoas por um dia. Além disso, ao longo da narrativa vamos conhecendo algumas especificações desta condição: ele sempre toma o corpo de pessoas da idade dele, nunca acontece duas vezes com a mesma pessoa, a mudança de corpo ocorre exatamente à meia noite e se ele não estiver dormindo o processo é doloroso, o próximo corpo sempre estará numa região próxima do corpo anterior, ele pode ser tanto homem como mulher, a pessoa não tem consciência de que seu corpo está sendo tomado, ele tem acesso às memórias, mas não aos sentimentos dos “hospedeiros”, etc. Devido à sua condição, essa pessoa, que se intitula A, acaba se tornando uma pessoa observadora e madura, ao mesmo tempo que é solitário e não tem nenhum objetivo a não ser passar despercebido. Isso muda quando ele acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada Rhiannon. Imediatamente A fica fascinado pela personalidade dela, acaba se envolvendo e se apaixonando. A partir disso, ele passa a procurar por Rhiannon nos dias que se seguem, e isso acaba afetando as vidas das pessoas. Certo dia ele usa o corpo de Nathan, um garoto “meticuloso” para encontrar a garota numa festa, porém ele acaba perdendo a hora e não consegue chegar em casa antes da meia-noite. Assim, Nathan acaba procurando um reverendo e diz que foi possuído pelo demônio, e passa a “perseguir” A em busca de respostas.

Todo Dia é essencialmente uma história sobre a adolescência. Entendi as mudanças de corpo de A como uma metáfora da busca de identidade pela qual passamos na puberdade. Além disso, a paixão por Rhiannon é retratada como um ponto de reestruturação de toda a vida anterior e posterior a esse encontro. Cada capítulo do livro comporta um dia do protagonista, numa espécie de diário em que nenhum dia é deixado em branco. Ao longo das diferentes vidas, David Levithan tempera sua história com diversas questões problemáticas da adolescência, como a identidade sexual, o consumo de drogas e álcool, depressão, suicídio, obesidade, bullying e conservadorismo. A escrita é carregada de reflexões de A a respeito de si mesmo e de seu hospedeiro, que ora apresentam declarações de amor piegas, ora expressam seu sentimento em relação à vida e à sociedade. Enfim, o livro é quase uma cartilha de exemplos da mente adolescente, sob o ponto de vista de um garoto puritano e cheio de escrúpulos. Mas não acho que isso tire o brilho da obra, uma vez que temos tantas outras obras de ficção que tratam adolescentes “menos comportados”.

Explico para ela que livros têm sido minha companhia durante todos esses anos, as constantes do dia-a-dia, as histórias às quais sempre posso retornar, mesmo quando a minha está sempre mudando.

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