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1984 é uma obra icônica do século XX. Publicada em 1949, a obra de George Orwell é uma das maiores referências em literatura distópica e seus componentes narrativos e temáticos passaram a habitar o imaginário contemporâneo, sendo recorrentes em diversas outras obras. Meu primeiro contato com a obra se deu justamente por meio desses “desdobramentos”. Mais especificamente através das obras 1Q84 de Murakami Haruki (que tem em seu título uma referência explícita) e na série Hunger Games de Suzanne Collins (que é uma distopia voltada para o público jovem adulto). Farei aqui algumas considerações sobre essas três obras, ocm o único intuito de manter um registro das minhas impressões sobre minhas leituras


1984
George Orwell x Obey Giant Print Set - 1984 Cover by Shepard FaireyEm 1984 acompanhamos a narrativa de Winston, um funcionário do governo responsável por alterar os registros de jornal, de forma a construir uma coerência como base do governo totalitário em que ele vive. O governo controla a vida e a mente da população através da força e da invasão de privacidade (as pessoas são vigiadas 24 horas por dia no trabalho, na rua e até mesmo em suas casas), mas também através da língua e do empobrecimento intelectual da população. A prole, camada mais baixa da sociedade, não é nem mesmo considerada humana, e vive completamente à margem. As notícias e a história foram tantas vezes deturpadas que o protagonista já não é capaz de identificar a verdade, em certa altura ele afirma que não tem nem mesmo certeza de viver no ano de 1984. Com sua mente perspicaz Winston começa a questionar o governo e inicia atos de rebeldia, o primeiro deles é registrar suas memória num caderno e o outro é manter uma relação com Julia, outra funcionária pública que com tendências rebeldes. Nesse contato cresce neles o desejo por uma rebelião. É então que Winston acaba entrando em contato com O’Brien, funcionário do governo do alto escalão, que os convida a juntarem-se à força rebelde, dando a eles um livro com as memórias históricas do país, desvendando o a fundação e o funcionamento do governo. A partir de então vemos Winston recuperando sua memória do passado, ao mesmo tempo que recupera a memória da nação.


1Q84
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A trilogia de Murakami, 1Q84 foi publicada entre os anos de 2009 e 2010 e é considerada sua obra-prima. Nela, características do autor, como as inúmeras referências à cultura clássica e pop mundial (especialmente ocidental),  e a presença de elementos fantásticos que se mesclam obscuramente num mundo fortemente realista, conduzem uma narrativa carregada de metáforas por um suspense que prende o leitor desde as primeiras páginas.
Os capítulos dos livros, em sua maior parte, alternam-se entre as narrativas do professor Kawana Tengo e da personal trainer Aomame. Ele, que tem aspiração à escrita, é convidado para ser Ghost Writter de “A Crisálida de Ar”, obra de fantasia escrita pela jovem excêntrica Fukada Eri, que apresenta uma narrativa fascinante, porém não possui muita habilidade com a linguagem. Já Aomame, secretamente comete assassinatos de homens que praticam violência doméstica. Os dois acabam se envolvendo numa trama incomum, que envolve rebeliões, seitas religiosas e seres sobrenaturais, e percebem que já não estão mais no mesmo mundo, pois neste há duas luas no céu. Ao longo da obra, enquanto acompanhamos a jornada dos dois personagens em desvendar os segredos desse mundo tão semelhante ao real, mas ao mesmo tempo tão fantástico, vamos descobrindo detalhes sobre seus passados e o ponto de ligação entra eles. Por fim, não conseguimos deixar de torcer para que os personagens consigam sair desse mundo que Aomame chama de 1Q84 (trocadilho com 1984, em japonês a letra Q tem o mesmo som de 9, a personagem usa esse trocadilho para distinguir o ano de 1984 do mundo real com aquele do mundo paralelo).
As já mencionadas referências, além de compor uma interminável rede de conexões com todo um universo cultural, ainda estabelece uma trilha sonora para a obra, que inclui desde música clássica até Michael Jackson.
É interessante notar que os protagonistas de 1Q84 são colocados numa situação financeiramente segura, ambos não se importam com futilidades e possuem uma fonte de renda inesgotável, que os coloca numa situação confortável, permitindo que se envolvam com situações estranhas e sobrenaturais, sem se preocupar com sua renda.


Hunger Games
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Uma das mais recentes franquias de grande sucesso de Hollywood, a trilogia de Suzanne Collins publicada entre os anos de 2008 e 2010 pegou carona no sucesso de séries de livros adolescentes narrados por uma garota envolvida num triângulo amoroso. No entanto a obra conseguiu se destacar das demais ao inserir sua personagem numa trama política sanguinolenta, que retoma alguns conceitos do regime totalitário que Orwell descreveu em 1984, e a crítica aos reality shows e entretenimento violento de uma forma semelhante à apresentada na série de mangá Battle Royale. Em Hunger Games vemos o desenvolvimento de Katniss, jovem do distrito mais pobre do país, de sacrifício à símbolo da revolução, quando demonstra sua coragem e lealdade para com as pessoas que ama. Katniss se voluntaria para substituir a irmã (que havia sido selecionada) num reality show onde um casal de jovens de cada um dos 12 distritos que compõem o país são colocados para lutar até a morte numa arena cheia de armadilhas, e apenas um sai vivo. Ao longo dos livros vamos conhecendo a história daquele país e compreendendo que os Jogos são o símbolo do controle da Capital sobre os demais distritos. Além disso, vamos conhecendo o abismo social que separa a elite da Capital que esbanja luxos e os distritos que lutam diariamente pela sobrevivência.

Ao longo de sua participação nos Jogos o repúdio de Katniss pelo sistema vai crescendo e isso é refletido em pequenas ações de rebeldia que visam salvar a própria vida e a de seu companheiro Peeta. Esses atos acabam repercutindo em todo o país e pouco a pouco o clima de revolução se instaura e deságua numa grande guerra civil narrada em todo o volume 3 – Mockingjay.


As Relações – Distopia
Acredito que ao longo das sinopses alguns dos pontos de contato das obras já foram se evidenciando. A série Hunger Games está relacionada com a obra de Orwell pelo gênero. Collins declarou diretamente 1984 como uma de suas inspirações. Toda a temática política, com o governo que controla e vigia a população, é semelhante. No entanto, enquanto em 1984 temos um desfecho pessimista de vitória do sistema sobre o ser humano, em Hunger Games o desfecho é mais otimista, apesar de não ser um final facilmente digerível. Winston conscientemente opta por tomar partido numa revolta (que não chega a ocorrer), já Katniss, percorre grande parte de sua jornada relutando assumir o papel que lhe foi incumbido de símbolo rebelde, na maior parte do tempo ela é manipulada ou age de acordo com o sistema, apenas mais tarde ela decide assumir definitivamente a responsabilidade de uma líder na guerra. Katniss é auxiliada principalmente por seu amigo de infância Gale, que representa o espírito rebelde, o parceiro Peeta, que é o cérebro e o discurso contra a opressão, e Haymitch, o mentor que guia Katniss rumo à revolução.


É possível perceber que os temas de 1984 são ainda atuais, e por isso pertinentes de serem recuperados numa obra contemporânea. No entanto, vemos também que cabe à contemporaneidade também desenvolver novas formas de trabalhar e solucionar os problemas que a obra carrega.

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