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02http://livrosleituraseleitores.blogspot.com.br/2013/07/esculturas-feitas-de-paginas-de-livros.html

Ainda lembro perfeitamente daquela pequena flor dourada com uma pérola no centro. Ela enfeitava aquela orelha tão delicada com sofisticação e simplicidade. O restante da vestimenta estava em consonância com o brinco. Nada em excesso, nada faltando, cada peça de roupa cumpria o efeito de cobrir e mostrar, e caiam-lhe com um equilíbrio sem igual. Exatamente por isso ela não chamava atenção dentro daquele ônibus ou quando passava na rua, mas a mim, aquela figura detalhadamente composta e simétrica era um símbolo da perfeição. Aquele era meu primeiro dia de trabalho e ela sentara ao meu lado, o que me fez pensar que meu destino não poderia ser mais feliz. Em suas mãos um livro aberto.

Tentei reconhecer o texto espiando pelo canto do olho, mas meu olhar só conseguia captar os movimentos de seu dedo, que dançava solitário por entre as palavras, sublinhando cada linha e marcando o compasso de sua leitura. Ela virou mais uma página e vi o título que a encabeçava: Manuscrito de um Sacristão. O título não me era estranho, mas como não sabia se se tratava de um capítulo de romance ou de um livro de contos, não pude ter certeza. Ao ler o título, ela levantou o olhar pela janela e num movimento rápido fechou o livro, guardou na bolsa, apertou o botão indicando que desceria no próximo ponto, e levantou-se. Eu permaneci na mesma posição, ainda enfeitiçado pela lembrança da presença dela ao meu lado. Relembrei fragmentos do texto que consegui espiar enquanto acompanhava o rápido movimento de seus dedos, juntei essas informações com o título da página que ela acabara de virar e logo percebi que se tratava de Histórias sem Data, de Machado de Assis. O conto que ela lia era Noite de Almirante. Fiquei imaginando se um dia voltaria a vê-la.

Não precisei esperar muito. Na manhã seguinte tomei o ônibus no mesmo horário e poucos minutos depois ela passava a catraca e sentava-se ao meu lado. Provavelmente ela não havia reparado em mim ontem, e também não reparou hoje. Ela parecia o tipo de pessoa sistemática, que toma o mesmo ônibus todos os dias no mesmo horário e senta-se no mesmo lugar, assim como eu fizera naquela manhã. Novamente ela tirou um livro da bolsa,  era outro. Não reconheci o título, mas pela composição da capa era um best-seller estrangeiro regado a açúcar e lágrimas.

Assim sucederam-se algumas semanas, nós dois tomando o mesmo ônibus e sentando no mesmo lugar, ela retirando a cada dois ou três dias um livro diferente da bolsa. Observando os títulos pude perceber que ela não é o tipo de leitora que se concentra em um único gênero ou em uma única época. Clássicos nacionais e estrangeiros, ficção científica e fantasia, livros adolescentes e adultos, poesia e prosa, romances e coletâneas de contos. Só havia um fator comum: todos eram livros de ficção. Com o tempo, alguns autores foram se repetindo, e assim pouco a pouco fui conhecendo seus prediletos.

Certa manhã, quando ela sentou-se ao meu lado como de costume e tirou da bolsa o exemplar, senti meu coração palpitar como nunca antes. Eu conhecia muito bem aquela capa em tons pastel. Era uma coletânea de contos de novos escritores. A coletânea que continha a minha primeira publicação. Não foi fácil conter minha excitação quando a vi abrindo o livro na página 91, onde começava o meu conto. É claro que ela ignorava completamente que a pessoa sentada ao seu lado era o autor da história que ela lia agora com tanta concentração. Eu era um jovem escritor, com poucas publicações e minha imagem nunca havia sido divulgada na mídia. Mas contentava-me pensar que havia agora mais uma ligação entre nós. Além de tomarmos o mesmo ônibus e sentarmos lado a lado. Além da afinidade quanto aos autores prediletos. Agora ela estava lendo as palavras escritas com meu sangue e minha alma.

A cada dia que passava crescia minha vontade de tirar os fones de ouvido e começar um diálogo com ela. Poderia comentar um dos livros que ela lia, ou dizer-lhe que eu havia escrito aquele conto. Poderia dizer que coincidentemente ela havia sentado ao meu lado todas as manhãs nos últimos três meses. Poderia dizer que eu estava prestes a publicar um livro, e daria a ela um exemplar, pois havia notado seu gosto pela leitura. Mas eu nunca tomei essa iniciativa. Ao invés disso, toda vez que o celular dela tocava durante a viagem de ônibus eu parava a música que tocava no meu fone para ouvir sua conversa e talvez assim conseguir alguma dica sobre quem era a pessoa por trás daquela leitora. E foi assim que acabei descobrindo seu primeiro nome.

Como bom observador e pesquisador que sou, apenas com seu nome e uma ideia aproximada do local de sua residência, consegui encontrar o perfil dela na internet. Passei algumas horas analisando cuidadosamente cada foto e informação que não estava bloqueada em seu perfil. Descobri que ela era universitária, que seus pais têm uma casa na praia, que há alguns anos mantém o mesmo grupo de amigos, e que aparentemente não tem namorado.

Algum tempo depois meu livro foi publicado, e em poucos dias ela tirou da bolsa um exemplar e começou a ler. Por ser uma publicação pequena, não houve grande publicidade e não era possível associar o livro à minha pessoa. Mas as palavras ali escritas eram pequenos fragmentos de meus pensamentos. Em um dos contos eu havia narrado sobre a leitora. Nessa história, após algumas semanas sentando lado a lado eu tomava iniciativa e começava uma conversa com ela, ela respondia timidamente à minha tentativa de aproximação, tendo como objeto do diálogo um dos livros que ela tirava da bolsa. A partir desse dia, nós passamos a nos cumprimentar, e conduzir breves diálogos a cada dia. Pouco a pouco um amor foi nascendo entre nós e o conto se encerrava com juras de amor eterno. Ao encerrar a leitura ela fechou o livro, passou a mão no brinco de pérola em sua orelha e levantou o olhar em minha direção. Eu, que observara atentamente cada segundo de sua leitura, não fui capaz de desviar os olhos. Alguns segundos de silêncio se passaram enquanto nossas visões se cruzavam. Naquele momento ela entendeu tudo, eu não entendi nada.

– Oi. – disse ela.

-Oi. – eu respondi.

Diferente de quando construí essa relação na ficção, aqui, na vida real, eu não tenho controle de como se desenvolverá. Só me resta torcer, para que a magia salte daquelas páginas e envolva o nosso mundo. Mas Machado já me ensinou que os ingênuos são os primeiros a sofrer.

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