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DSCN2492Morte Súbita é o primeiro livro que J.K. Rowling publicou fora do universo de Harry Potter. Nele a autora deixa de lado o mundo da fantasia e nos apresenta um vilarejo de interior e seus conflitos sociais, políticos e interpessoais. De Harry Potter, Morte Súbita herdou a escrita cativante, que torna o leitor cúmplice de seus apontamentos irônicos. O livro também recupera de forma potencializada diversas questões que permeavam no plano de fundo do mundo da magia, como os problemas de classes sociais, corrupção, dramas familiares e a negligência para com a juventude. Porém o grande mérito do livro é sua narrativa com múltiplos focos, apresentando a história sob o ponto de vista de diversos personagens diferentes, sempre acrescentando uma informação relevante para o desenrolar da trama “principal” ou daquele núcleo.

Por falar em trama, vamos à ela. A história começa com a morte de Barry Fairbrother, uma importante figura política do vilarejo de Pagford, que representa e defende os direitos das classes mais baixas e tem um carisma capaz de conquistar a todos, exceto Howard Mollison e sua família, o maior opositor de Barry no Conselho Distrital. Enquanto Barry representa a ascensão social, os Mollison representam a família tradicional conservadora. Após sua morte acompanhamos a preparação do vilarejo para eleger seu substituto. Entre os candidatos temos um “herdeiro ideológico” de Barry, um membro da oposição e um sujeito oportunista que pretende ganhar dinheiro de corrupção. No entanto, esse cenário político começa a ser ameaçado pela entidade virtual que utiliza o nome de “Fantasma_de_Barry_Fairbrother” para revelar segredos de diversas figuras políticas (tanto conselheiros já eleitos como os candidatos à vaga de Barry). Esse “fantasma”, porém, não é uma única pessoa, mas vários jovens, que encontram na internet uma ferramenta para se vingarem por seus problemas sociais e familiares. E é aqui que vemos como a J.K. é brilhante em retratar os problemas da juventude. Os personagens adolescentes vão desde o “rebelde sem causa” a uma vítima de bullying, uma vítima de violência doméstica, uma vítima de abuso sexual, etc.

Estruturalmente o livro é dividido em sete partes, cada uma iniciada com uma citação de lei, que adiantará o principal tema que a trama seguirá. Sem pressa de conquistar o leitor, J.K. constrói sua história aos poucos, dedicando toda a primeira parte a apresentar cada membro das principais famílias do vilarejo em seu dia-a-dia e a repercussão da notícia da morte de Barry em suas vidas. Dessa forma, não temos uma imagem definida de cada personagem no exato momento em que ele surge, mas sim, vamos conhecendo-os de acordo com suas ações e pensamentos ao longo do livro.

A palavra que não sai da minha cabeça quando penso neste livro é “experimento”. Por um lado, sinto que a autora quis fazer um experimento literário, ao distribuir a narrativa em diversos núcleos, desenvolvendo cada um dos dramas pessoais em paralelo à trama principal, um verdadeiro desafio para uma autora que até então havia escrito uma longa série sob um único ponto de vista. Por outro, o cenário retratado às vezes parece tão fechado e sufocante, que dá a sensação de que Pagford é um grande formigueiro construído num aquário de vidro, para a observação da organização social daquela comunidade.

Pessoalmente, meus núcleos favoritos são os de Andrew Price e de Samantha Mollison. Ambos sofrem de uma espécie de “repressão” e aos poucos vemos o desenvolvimento de suas válvulas de escape até um clímax que os tira de suas “prisões”. Andrew tem um pai violento e vive à sombra de seu melhor amigo, o cara mais descolado da escola. Samantha sofre uma crise em seu casamento com Miles Mollison, principalmente decorrente de seu desagrado com a família do marido e sua decepção ao vê-lo tornar-se um reflexo do pai. Andrew é motivado à agir por sua paixão por Gaia, jovem recentemente transferida de Londres; já Samantha encontra numa boyband a imagem jovem e viril que já não vê mais em seu marido. São meus favoritos, pois seus dramas são cotidianos e suas reações bastante humanas são fáceis de se identificar.

Na parte juvenil do livro, os dois núcleos que mais influenciam na trama principal são os de Krystal Weedon e Sukhvinder Jawanda. Krystal é moradora do subúrbio, sua mãe é viciada em drogas e está correndo o risco de ter seu filho tomado pelo conselho tutelar caso não trate o vício. Ela é tratada por todas como uma delinquente e tinha em Barry e na avó (que também falece ao longo da narrativa) as figuras de apoio e conforto. Já Sukhvinder é a filha mais nova de Parminder Jawanda, médica da cidade e maior aliada de Barry no conselho distrital. Sukhvinder é introvertida e vítima de bullying por sua aparência. Em casa também é vítima de repressão por parte da mãe, por seu desempenho escolar ruim. Tudo isso leva ela à prática de autopunição. Encontra em Gaia sua única amiga, que a impulsiona a tomar diversas ações para sair de seu ciclo de sofrimento.

É muito difícil escrever uma resenha para este livro, pois por um lado corre-se o risco de dar detalhes demais da história ou de acabar não transmitindo o quão interessante e complexo o livro é. No geral, eu diria que é uma leitura prazerosa e que, apesar de extenso, não desperdiça seus capítulos. Para os fãs de Harry Potter que já cresceram e estão dispostos a sair do mundo da fantasia e ver um pouco da fantasia do mundo, está recomendado.

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