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manifestação-dia-171http://reporteralagoas.com.br/novo/wp-content/uploads/2013/08/manifesta%C3%A7%C3%A3o-dia-171.jpeg

A multidão, que caminhava em sincronia bradando palavras de ordem e erguendo cartazes, de repente agitou-se. Uma sufocante fumaça espessa começou a subir. Era como se tragasse os sentidos daqueles que ali estavam. As pessoas começaram a se dispersar, correndo para todos os lados, fugindo das mãos opressoras que tentavam a todo custo agarrá-las. Um rapaz caiu, ainda confuso. Parecia prestes a ser pisoteado. Os demais que corriam temerosos, ao perceberem que um companheiro estava vulnerável, tomaram coragem e voltaram para defendê-lo. Eram novamente uma multidão, aparentemente ainda maior, pedindo em uníssono pelo fim da violência. A violência física que a polícia exercia sobre os manifestantes. A violência ainda maior que os governantes corruptos praticavam diariamente contra a sociedade que os colocou no poder. Na fileira da frente levantava-se uma bandeira: “O GIGANTE ACORDOU!”.

Joanna (nome fictício) assistia a essas cenas da TV da sala. Quando os protestos começaram, alguns dias antes, todos pensaram que logo se dispersariam, não deixando nada além de algumas destruições por onde passavam. Mas ela assistia esperançosamente os noticiários na televisão e buscava na internet os pontos de vista que aquela não proporcionava. Ela sentia um clima de renovação. Uma juventude ativa que se levantava indignada diante de um estado de passividade que vinha se arrastando há anos.

Naquela noite, enquanto assistia a cobertura, pensava no marido que devia estar preso no trânsito resultante da manifestação. Ele havia ligado de tarde dizendo que não conseguiria sair mais cedo, pois surgira um imprevisto na empresa. Ela, que já era casada há mais de duas décadas, sabia que esse imprevisto tinha nome, sobrenome, pele e cabelos sedosos, seios fartos, trabalhava como secretária e era quase duas décadas mais nova que ela. Houveram outros imprevistos antes deste. Quando Joanna descobriu o primeiro, ficou chocada, mas na época uma amiga lhe disse que a culpa era sua, afinal, não era vaidosa e tinha o apetite sexual de um arbusto. Ela decidiu mudar. Passou a se cuidar mais, usar cremes, fez um corte de cabelo mais moderno, comprou novas roupas e lingeries. O marido ficou surpreso (e até um pouco desconfiado, de início) quando ela saiu do banho, certa noite, num conjunto vermelho bastante sensual, ainda envolta pelo vapor do banho quente. Nas primeiras semanas as horas-extra pareciam ter se encerrado. Mas logo voltaram tão ou mais frequentes quanto antes. Sua irmã, então, lhe disse que o melhor a fazer era castigar a conta bancária do marido. Então, toda vez que se sentia aborrecida com os imprevistos dele, ela ia ao shopping e comprava uma bolsa ou um sapato novo, e pouco a pouco foi se acomodando àquela situação.

Naquela noite, porém, enquanto assistia o noticiário e lia cartazes de “Não vou me adaptar” e “Sem luta nada muda”, uma angústia travou-lhe à garganta, impulsionando-a a agir. Quando o marido chegou exausto cerca de uma hora mais tarde, viu a mulher sentada na penumbra à sua espera. Percebeu nela uma misteriosa beleza irreprimível que parecia emanar de seu olhar ressentido. Ele logo compreendeu que ela sabia, e deixou correr silenciosamente uma única lágrima. Olhou ao redor buscando por uma mala contendo as suas coisas, ou talvez as dela, mas ao invés disso ela veio até ele, lhe deu um abraço e ambos caíram num choro doloroso e cicatrizante.

Uma grande transformação não é feita da noite pro dia. Mas agora o governo sabia que o povo não se calaria mais diante de sua desonestidade. Assim como o marido sabia que a esposa não aceitaria mais sua infidelidade. Não era a bomba da revolução que havia sido plantada, mas sim a semente da mudança que germinava nas profundezas.

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