Olá a todos.
Na semana passada eu postei aqui no blog o conto Dragão de Sete Cabeças de minha autoria. Hoje resolvi contar um pouquinho sobre o processo de criação do conto.

Primeiramente preciso dizer que ele foi feito inicialmente como avaliação da matéria Literatura Japonesa IV, ministrada pela Lica-sensei. A avaliação das matérias de Literatura ministradas por ela costumam ser a escrita de um conto utilizando as técnicas do(s) autor(es) estudado(s) ao longo do semestre. Neste semestre o autor estudado foi Yasunari Kawabata (1899-1972), prêmio Nobel de Literatura em 1968. Representante da corrente neosensorialista, teve diversas obras publicadas no Brasil: DSCN2375A Dançarina de Izu, A Gangue Escarlate de Asakusa, O País das Neves, O Mestre do Go, Mil Tsurus, O Som da Montanha, O Lago, A Casa das Belas Adormecidas, Kyoto, Beleza e Tristeza e Contos da Palma da Mão. Antes de escrever meu conto eu havia lido O País das Neves, Kyoto e alguns dos Contos da Palma da Mão (destaque para “A fotografia”, “Os inimigos” e “A lua”, com que mais me identifiquei e certamente me inspiraram). Em especial, no momento de escrita do texto eu havia acabado de concluir a leitura de Kyoto e fique muito tocado pela forma com que aquele texto fora construído. No dia da escrita eu também tive uma aula sobre o estilo de Kawabata e portanto estava “cheio de inspirações”.

Entre as técnicas do autor, eu tentei incorporar:
– a forma de descrever a cena permeada pelos sentimentos e sensações das personagens – “Sentia seu sangue pulsar…”, “Sentia sede.”, “Sentia frio.”, “Sentia sono”, “Sentia-se pleno.”, etc.
– o olha difuso (empregado para “borrar” as cenas que estão sendo descritas) – “O vapor que emanava do contato de seu bafo quente com o ar gelado de fora embaçava-lhe a vista.”, “Sua vista ficou turva por um instante.”
– o uso de símbolos – “bicho de sete cabeças”.
– o emprego das palavras-contraste – “bafo quente/ar gelado”
– a criação de expressões paradoxais – “tudo que perdeu para ganhar este combate”.

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Para os interessados na obra do autor recomendo a leitura de Kyoto (uma história sobre uma garota adotada que acaba procurando suas origens num período em que a antiga capital – Quioto – também está tentando encontrar-se num mundo moderno) e Beleza e Tristeza (um complexo quadro de relações composto por: Um escritor casado que teve um caso com uma jovem, que acaba engravidando e abortando. Essa jovem envelhece e se torna uma famosa pintora, que desenvolve um relacionamento homossexual com sua aprendiz, na qual ela vê um reflexo de sua própria juventude. E essa aprendiz que por ciúme resolve vingar-se do escritor, seduzindo-o e a seu filho). Eu comprei A Gangue Escarlate de Asakusa na Festa do Livro na semana passada, e farei uma resenha assim que conseguir ler.
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Mesmo com todo esse aparato teórico na cabeça, uma história não surge se não houver aquele estalo da inspiração. E esse estalo veio ao assistir um episódio de Log Horizon. Animê de 2013, baseado na série de Light Novels de Mamare Touno, que conta a história de jovens que acabam “teletransportados” para dentro de um jogo de RPG online. A mesma premissa deu origem a diversas outras séries de sucesso, como Digimon, .hack// e mais recentemente Sword Art Online. Devido ao grande sucesso que esta última (S.A.O.) teve recentemente, era impossível assistir Log Horizon e não compará-lo. A própria série desenvolveu cenas e diálogos que parecem deixar bem claro suas semelhanças e diferenças com a antecessora.

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O que me deixou inspirado, no fim das contas, foi justamente a forma como os personagens lidam com esse outro mundo. Em S.A.O., os personagens jogavam um jogo de realidade virtual, recém lançados, quando se dão conta de que não é possível deslogar, e são então informados de que para sair daquele mundo era necessário finalizar o jogo, e também que ao morrer dentro do jogo, a pessoa morreria também no mundo real. Já em L.H., vemos que o jogo não era uma realidade virtual, mas sim um jogo de computador, como os jogados atualmente, e de repente, os jogadores se viram presos dentro de seus personagens. Mas ao invés de buscarem uma saída do mundo virtual, os heróis passam a perceber aquele como seu “novo mundo”, e começam a se adaptar a viver nele. Outra diferença é que ao morrer no jogo, eles renascem na cidade principal (como nos jogos online de computador).

Assistindo a um episódio eu comecei a desenvolver na minha cabeça a imagem de uma pessoa que se envolve com o jogo com tal profundidade, que aquele passa a ser o seu próprio mundo. Refletindo sobre esta questão foi que comecei a desenvolver a história de Dragão de Sete Cabeças.
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Por fim, enquanto escrevia as primeiras cenas do conto, que se passam dentro do jogo, recuperei uma questão com a qual havia me deparado alguns meses antes navegando na internet. O vício em jogos online. O que inicialmente era para ser uma simples reflexão sobre o modo como um jovem se relaciona com o mundo “virtual”, tornando-o seu mundo “real”, desdobrou-se nas consequências sociais acarretadas por essa atitude, trazendo a tona o problema dos NEET, tão atual na sociedade japonesa. Quem estiver interessado pelo tema do vício em jogos online, este texto pode ser um começo: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1146914-viciados-em-jogos-preocupam-pais-e-psicologos.shtml
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Ps. Quando estava terminando de escrever esta explicação lembrei de mais uma possível influência na escrita deste conto. Os episódios finais do clássico Neon Genesis Evangelion. Estes episódios, idolatrados por uns e odiados por outros, se passam na mente do protagonista (que tem lá seus distúrbios psicológicos e sociais), 3e ele reflete sobre sua própria identidade, a partir do modo como ele é visto pelas pessoas ao seu redor. Sendo um animê que permeia meu imaginário há muitos anos, não é de se surpreender que eu tenha escrito um personagem que começa a refletir sobre como os outros o vêem. Mas aqui (no meu conto), o jovem também se compara aos outros e tenta até mesmo se justificar e se proclamar superior.

 

 

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