Aviso: Estou ressuscitando o blog (talvez) para postar algo aleatório quando der na telha. Estou começando com um conto que escrevi em outubro, inspirado em algumas técnicas utilizadas pelo autor japonês Yasunari Kawabata.

http://mitobook.blogspot.com.br/2011/04/hidra-de-lerna.html

Sentia seu sangue pulsar numa velocidade nunca antes experimentada. Era como se todos os desafios que enfrentara até então tivessem sido apenas um preparo para este momento. Seus músculos lembravam-se de cada floresta que atravessou, de cada pedra que empurrou, de cada montanha que escalou, de cada inimigo que derrubou. Seu suor escorria-lhe pela testa e sua respiração estava ofegante. O vapor que emanava do contato de seu bafo quente com o ar gelado de fora embaçava-lhe a vista. Finalmente encarava aquele enorme dragão, o medo tremia-lhe a espada que tinha em mãos. Tomou fôlego e saltou em direção ao seu alvo. O monstro, apesar de grande, não era nada lento, ao notar a presença ameaçadora do guerreiro começou a agitar sua cauda gigante em defesa. Mas o rapaz estava pronto, estudara antecipadamente cada um dos movimentos que faria, com extrema maestria rolou por baixo do ataque inimigo e investiu, fincando sua lâmina de bronze no meio daquelas escamas brancas, exatamente como lera durante o treinamento. Como esperado, o líquido dourado escorreu da ferida, mas ele sabia que aquilo era apenas o começo, aquela batalha ainda duraria algum tempo.

Sentia sede. Mas não havia tempo para pensar nisso. Ele tinha um dever a concluir e não mediria esforços para tanto. Quando a cauda passou assobiando por cima de sua cabeça mais uma vez sabia que era hora de aplicar o combo de golpes que aprendera recentemente. Aquilo certamente causaria um dano considerável e levaria aquela disputa para um novo nível. Não havia tempo de poupar forças, o melhor a fazer era dar tudo de si antes que fosse atingido. Mordendo o lábio controlava o temor que lhe gelava a espinha.

Sentia frio. Devia ter vestido uma blusa. Agora era tarde pra pensar nisso. Primeiro venceria o desafio, depois se preocuparia com os incômodos externos. O golpe atingiu-lhe o peito em cheio, arremessando seu corpo para longe. Sua vista ficou turva por um instante. O feroz olhar rubro penetrava-lhe a cabeça, alimentando o fantasma do medo que já se instalara em cada célula sua. Mas isto não fora suficiente para tirá-lo de combate. Com a determinação redobrada ziguezagueou em direção à barriga sem escamas de seu maior desafeto e aplicou um golpe certeiro. “Foi um lance de sorte” ele sabia, mas isso não tirava-lhe o mérito.

Sentia sono. Era o sol que nascia lá fora? Droga, a disputa já varara a noite. Ele sabia que faltava pouco para terminar. Esfregou a sonolência para fora dos olhos e iniciou o ataque derradeiro. Apesar de todo o dano que causara à fera, ela movia-se com mais vigor do que nunca; mas estava acostumado com isso, todos os inimigos que enfrentou até aqui eram assim, o último embate era sempre o mais desafiador. Foi então que o pavor materializou-se diante de seus olhos. Fora atingido por uma brisa gelada que limitou-lhe os movimentos. Será que viera da boca da imensa criatura? Ou da janela aberta à sua frente? Não sabia, mas decidiu que não seria impedido por isso. Abraçou aquela forma escura que habitava sua mente. Ela desapareceu em seus braços. Com uma finta de espada atravessou a garganta do dragão. Diferente dos cortes que fizera anteriormente, este não causou um sangramento. O corpo gigante enrijeceu diante de seus olhos, um brilho esverdeado surgiu do ponto que a lâmina trespassara, espalhando-se, até que aquela enorme massa tornou-se uma bola de luz que resplandeceu e consumiu-se em questão de segundos. Ele vencera.

Sentia-se pleno. Foram anos de sua vida dedicados à esse objetivo. Lembrava-se de todas as noites que passou em claro, das refeições apressadas, dos amigos que deixara de ter, tudo, tudo que perdeu para ganhar esse combate. O vento que entrava pela janela aberta já não o incomodava, mas o cansaço era tanto que deitou-se na cama ainda com o computador ligado, mostrando os créditos finais. Era uma vitória e tanto… Uma lágrima escorreu por sua face e pousou sobre o travesseiro no instante em que chegou Hipnos.

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A mãe olhava para o quarto preocupada. Viu a luz do monitor que vazava por debaixo da porta, e logo soube que o filho novamente passara a noite jogando. Hoje fazia nove meses que ele se formou no colegial. Nove meses sem contato com o mundo lá fora. Ela queria poder chamá-lo de ronin[1], mas ele nem mesmo tentara entrar numa universidade. Desde novo apresentava um comportamento antissocial, e ela logo imaginou que ele se tornaria um NEET[2]. Poucas vezes trouxera amigos para visitá-lo e os poucos que trouxe ela já não via há muito. Quão desafiador o mundo lá fora deveria parecer aos olhos de seu bebê? Ela própria fora uma garota tímida em sua juventude, mas as relações humanas não eram nenhum bicho de sete cabeças. Seu filho era bonito, certamente várias garotas se pegaram admirando os olhos que ele escondia sob os grossos aros de seus óculos. Alguma delas deve ter até mesmo esperado atrás de um tronco de sakura[3] para se declarar para ele. Que teria ele respondido a ela?

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O sol já se pora quando acordou. Percebeu que precisava de um banho quando coçou a cabeça e sentiu o couro cabeludo oleoso. Lembrou da luta que travara na madrugada daquele dia. “Um dragão branco… Matei um dragão branco…”. Não seria esse o seu motivo de viver? Afinal, que diferença tinha o valor de sua conquista se comparado a alguém que fora aprovado na Todai[4] ou alguém que anunciava seu casamento? Não seriam todas as vitórias avaliadas de acordo com a satisfação que trazem para aquele que as alcança? Sendo assim, derrotar um dragão não poderia ser ainda mais incrível do que passar no vestibular? Não poderia um guerreiro que exibe a carcaça da fera que derrotara receber glória maior do que um noivo sobre o altar que espera sua amada aparecer pelas portas de carvalho na outra extremidade do salão?

Olhou ao redor e notou que a janela havia sido fechada, assim como a tela do computador estava apagada. Sentiu de repente cheiro de cebolinha. Percebeu então sua impotência. Deitou-se novamente e outra lágrima escorreu por sua face até pousar no travesseiro. Queria não ser motivo de vergonha. Queria enfrentar o monstro de sete cabeças que lhe esperava lá fora. Mas sabia que em suas condições atuais só poderia derrotar uma cabeça por vez.


[1] Pessoa que falha no vestibular no último ano do colegial e passa o ano seguinte se preparando para prestar novamente.

[2] “Not in Education, Employment, or Training” – Pessoa que não tem participação ativa na sociedade (não está engajada em nenhum emprego ou estudo).

[3] Cerejeira.

[4] Universidade de Tóquio – a universidade mais bem conceituada e, portanto, mais difícil de entrar.

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